Uma religião para o dia a dia

Pessoas cristãs precisam ser pessoas inteiras, que enxergam a vida como um todo, com uma visão que dá sentido e orientação para tudo o que fazem. Isso significa viver na presença de Deus

30/08/2018

Tiago 1.17-27
Leituras: Deuteronômio 4.1-2, 6-9
Salmo 15
Marcos 7.1-8, 14-15, 21-23

Estimada Comunidade:
Tiago e Judas (os das Cartas de Tiago e Judas) eram irmãos de sangue de Jesus. Isso podemos ler em Mc 6.3: “Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aqui?” No entanto, esses dois irmãos não eram discípulos de Jesus. Eles somente se tornaram seguidores de Jesus após a sua ressureição. Tiago assumiu uma forte liderança na Comunidade cristã de Jerusalém. Para Tiago, o cristianismo deveria ser um grupo (uma ordem) dentro do judaísmo. Tiago enfatiza que a Lei de Deus deve ser praticada no dia a dia e não somente nos rituais do templo. A pessoa cristã santifica a Deus através da obediência à vontade de Deus. Por isso, Tiago enfatiza que o cristianismo era uma espécie de “judaísmo com gestos concretos”.

A carta de Tiago foi escrita por volta do ano 50 d.C. e aborda questões práticas e problemas frequentemente enfrentados por muitas pessoas cristãs. Por exemplo: a impaciência, a incapacidade de fazer o que se sabe que é correto, o favorecer uns e não outros, a apatia e o egoísmo. Tiago apresenta sábios conselhos para a vida. Por exemplo: As tentações não vem de Deus, vem dos próprios maus desejos. Cada pessoa esteja sempre pronta para ouvir e demore para falar e ficar com raiva. Uma pessoa religiosa deve controlar a sua língua. O ponto alto desses conselhos para a vida diária da pessoa cristã é a confissão comunitária de pecados. “Portanto confessem seus pecados uns aos outros e façam oração uns pelos outros, para que vocês sejam curados. A oração de uma pessoa obediente a Deus tem muito poder” (Tiago 5.16). O ouvir da Palavra de Deus deve conduzir as pessoas para a aplicação dessa Palavra. Mas, o povo de Deus continua sendo pecador e irá cometer erros. As pessoas ferirão umas as outras e por isso precisam confessar seus pecados e perdoar-se mutuamente.

Quando Tiago fala de Palavra de Deus (Palavra da verdade que vem do Pai das luzes do céu), a referência é o Antigo Testamento, pois o Novo Testamento ainda estava sendo escrito. Para Tiago, a Palavra de Deus é perfeita. Não viver de acordo com a Palavra de Deus significa abandonar essa imagem perfeita. Para Tiago, a pessoa é religiosa se ela praticar o que a religião professa. Por isso, ele encoraja as pessoas de sua comunidade a retornarem à Palavra de Deus (no caso a Lei de Deus, a Torah) e viverem vidas justas enfocadas no servir ao próximo.

Martin Lutero em 1522 fez duras críticas a esse exagero de Tiago nas obras. Lutero entendia que ao enfatizar tanto a necessidade de obras, o sacrifício de Jesus na cruz ficava em segundo plano. Aliás, Lutero dizia que a carta de Tiago carece de ensino sobre Cristo, a quem os apóstolos deveriam pregar. A carta de Tiago menciona a Cristo várias vezes, mas nada ensina a seu respeito, falando apenas de uma fé genérica em Deus. E para Martim Lutero, o que não ensina a Cristo não é apostólico, mesmo que Pedro ou Paulo o tenham escrito. Por outro lado, o que prega a Cristo é apostólico, mesmo que Judas, Anás, Pilatos ou Herodes o tenham escrito.

Lutero temia que ao promover tanto as boas obras, as pessoas contabilizassem as suas obras e começassem a fazer exigências a Deus. Lutero via que muitas pessoas faziam boas obras apenas para enaltecer o seu próprio EGO ou então para ganhar “pontinhos” no céu. Ele dizia que essa história de acumular pontinhos no céu era uma invenção do diabo para colocar Jesus no banco de reservas. E na realidade era isso mesmo que estava acontecendo na sua época com a venda de indulgências no século XVI. As indulgências eram fundamentalmente “as boas obras dos santos” que estavam sendo comercializadas pela igreja romana em troca da salvação do purgatório.

Para Lutero, as boas obras deveriam ser consequência da justificação da fé. As boas obras devem ser vistas como uma resposta de gratidão de cada pessoa cristã pela salvação conquistada unicamente pelo sofrimento, morte, ressurreição e ministério de Cristo. Jesus morreu na cruz, desceu ao mundo dos mortos, derrotou a própria morte e ressuscitou. Esse Jesus ressuscitado oferece as pessoas uma nova vida depois da morte, junto a Deus. A salvação é um presente de Deus através de Jesus Cristo. A pessoa não pode fazer e nem pagar nada para merecer isso. Ao reconhecer que a salvação é um presente de Deus em Jesus Cristo, Deus vai transformar a cada pessoa de fé numa nova criatura, capaz de viver em solidariedade, em amor uns pelos outros.

Depois que a igreja deixou de vender escancaradamente as indulgências no século XVI, Martim Lutero passou a ensinar com mais clareza que com as boas obras a pessoa cristã santifica a Jesus Cristo - não a si mesma. Deus implantou em nós a sua Palavra e nos justificou em Cristo, agora nos chama a abençoar outras pessoas. Deus nos honra usando-nos para levar o seu amor a todas as pessoas, especialmente aquelas que o mundo ignora.

Mas tem mais uma coisa importante.
Tiago é um questionador daqueles que dizem que a “minha vida no domingo não tem nada que ver com minha vida durante a semana”, ou “meu trabalho é algo separado de minha vida como cristão”, ou “eu faço os meus investimentos pensando somente no lucro, não me importo como a empresa faz ou age”, ou  “religião e politica tem se manter separadas”. Tiago é um questionador dessa perspectiva que o mundo moderno nos divide em partes independentes: educação é educação, política é política, vida econômica é vida econômica. Tudo isso deve estar fora do controle ou da influência da religião.

É certo que muita coisa boa acabou acontecendo na história nos últimos 500 anos principalmente, por causa desse processo de secularização. O conhecimento científico aumentou muito em cada um desses setores, mas isso também teve um custo, principalmente no campo da ética. Qual é o critério para decidir o que é conveniente ou inconveniente? Além disso, essa divisão da vida em esferas independentes fez com que muitos aspectos da religiosidade sejam altamente individualistas e se apliquem apenas a pequenas áreas da vida. Desta forma, Deus passa a ser o “deus das lacunas”, ou seja Deus dá sentido para aquelas partes da vida que não são alcançadas pela economia, pela medicina ou pela psicologia. E assim, o cristianismo se aplica apenas a pequenas partes de nossas vidas.

Tiago insiste que pessoas cristãs precisam ser pessoas inteiras, que enxergam a vida como um todo, com uma visão que dá sentido e orientação para tudo o que fazem. Isso significa viver na presença de Deus. 

Por isso, somos desafiados hoje a olhar para a Bíblia que nos revela Deus vivendo e se movendo ao longo de toda a história e em todos os aspectos de sua Criação. Um Deus que está vivo em todas as áreas de sua Criação e que requer e induz uma resposta humana em todas essas áreas.

Muitas pessoas precisam de ajuda para relacionar a pregação do domingo com os outros dias da semana. Essas conexões não surgem automaticamente. Precisamos enfatizar que a Bíblia somente tem valor de Palavra de Deus quando está em função e à serviço da vida. Pão, carne, casa, terra, trabalho, saúde, escola, participação, liberdade, alegria, festa, vida abundante. O Espírito de Deus se manifesta na luta pela garantia destas coisas para todas as pessoas e pelo bem de toda a Criação de Deus. O que Tiago nos lembra hoje é que o eixo da espiritualidade cristã não está no conflito corpo x alma, entre espírito x matéria, entre sagrado x profano, entre igreja x mundo. A espiritualidade cristã deve ter como eixo a fé com obras, ou a prática da Palavra de Deus em favor da vida humana e de toda a Criação de Deus. 

A confissão que o nosso Deus é o Deus da Vida nos fornecerá os critérios para o nosso posicionamento e atuação cristã no mundo. O lado que nos corresponde estar nesse mundo como pessoas cristãs é aquele definido pela presença do Deus da Vida. É Deus quem define sua presença na história, não nós. Por isso, diante dos conflitos de nossa realidade, devemos sempre perguntar onde Deus está presente, onde Deus está agindo e falando na nossa sociedade. Onde está acontecendo a ressurreição, onde está brotando a vida nova, o Reino de Deus, onde o Espírito Renovador e Vivificador está atuando. 
Deus não faz as coisas por nós – ou em nosso lugar – mas ele quer partilhar sua ação/presença conosco. É partilhando desta ação com Ele que nos tornamos companheir@s de Deus na Criação. Tornamo-nos co-criador@s do mundo e ao mesmo tempo co-criador@s de nós mesmos. Somos seres inacabados e sendo companheir@s de Deus em sua Criação é que caminhamos para alcançar a “medida da estatura da plenitude em Cristo”(Ef 4.13). 

Portanto, a Palavra de Deus nesse domingo – mais uma vez nos oferece o testemunho de um povo que encontrou Jesus em sua vida e em sua realidade. Esta é também a finalidade da nossa busca por Deus e por Jesus Cristo hoje: Descobrir a presença divina em nossa história e responder-lhe com gestos concretos de solidariedade, de justiça e de amor. Reconhecer que o amor de Deus por nós em Jesus Cristo quer colocar dentro de cada um de nós um “cristão”, isso é um “Cristo grande”, que será maior do que o meu ego e o meu egoísmo. Essa transformação ninguém consegue fazer, exceto o amor de Deus em Cristo Jesus. Somente esse amor de Deus pode nos transformar em seres humanos melhores, que vão fazer boas obras – vão fazer coisas boas nesse mundo – não para ganhar “pontinhos no céu” ou para enaltecer o próprio ego. Uma pessoa transformada pelo amor de Deus faz boas obras somente para santificar a Deus. 
Amém.
 


Autor(a): Nilton Giese
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Belo Horizonte (MG)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Área: Comunicação / Nível: Comunicação - Programas de Rádio
Testamento: Novo / Livro: Tiago / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 17 / Versículo Final: 27
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 48610
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