Consolo para a morte

- na vida passamos por aflições e morte

03/02/2018


1 Tessalonicenses 4:13-18 (NVI)
Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem (que vocês saibam a verdade a respeito dos que já morreram – NTLH), para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e juntamente com ele, aqueles que nele dormiram (Deus o levará de volta e, junto com ele, levará os que morreram crendo nele – NTLH). Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados (seremos levados nas nuvens – NTLH) juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com estas palavras.

(A comunidade Martin Luther do Riode Janeiro está de luto pelo passamento de pessoas queridas e zelosas na obra do Senhor. Desta forma, tratamos o assunto da morte no culto e com esta pregação.)

Prezada comunidade.

O apóstolo Paulo, autor de 13 cartas do NT, estava em Corínto quando recebeu a visita de seu discípulo Timóteo, recém retornado da cidade de Tessalônica. Importante cidade romana, com fontes de águas termais era chamada de Terme, no golfo de Salônica. Cassandro, sucessor de Alexandre, o Grande, dá novo nome à cidade em homenagem à sua esposa Thessalónike. A primeira de todas as cartas de Paulo foi esta, para a Igreja em Tessalônica, que surgiu a partir de sua segunda viagem missionária. Quem levou esta carta à Tessalônica foram Silvano e Timóteo. Nesta carta Paulo comenta a vida da comunidade cristã e detecta uma preocupação.


As notícias vindas de Tessalônica eram boas: a congregação cristã crescia, não somente em número, mas também na qualidade de vida espiritual, da profundidade de fé e conhecimento a respeito da fé cristã. Os tessalonicenses conheciam, por exemplo, as palavras de Jesus Cristo: “Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. ... quando virdes todas estas coisas, sabei que [o fim] está próximo, às portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.” (Mateus‬ ‭24:32-34‬ ‭ARA). E esta era a grande questão da comunidade: pessoas da igreja começaram a morrer sem que se cumprisse a promessa de Jesus Cristo. Em que acreditar? Como vencer o medo da morte?‬‬


Os que dormem
Embora a morte assuste a muitas pessoas, temos ciência de que Jesus veio “...destruir o Diabo, que tem poder sobre a morte. E também para libertar os que foram escravos toda a sua vida por causa do medo da morte.” (Hebreus‬ ‭2:14-15). O apóstolo, por revelação do Senhor, instrui a Igreja para que não ignore mais o que está relacionado com a esperança – e não fique triste sem consolo como sofrem aquelas pessoas que não creem (v.13), isto é, fala não mais em morte, e sim, nos que dormem. Dormir era uma metáfora para morte entre os povos antigos, uma espécie de “sono da alma” (veja tb Lucas 8.52; João 11.11-14.) Havia bem pouca clareza a respeito do assunto morte na época, tanto assim que até partidos – sim, eles já se metiam onde não eram chamados – defendiam diferentes ideias, como, p.ex., os saduceus. ‬


O argumento de Paulo é ainda mais contundente ao recordar aquilo que já era Confissão de Fé na comunidade primitiva. “Eu passei para vocês o ensinamento que recebi e que é da mais alta importância: Cristo morreu pelos nossos pecados, como está escrito nas Escrituras Sagradas; ele foi sepultado e, no terceiro dia, foi ressuscitado, como está escrito nas Escrituras...” (1Coríntios‬ ‭15:3-4‬ ‭NTLH‬‬) Se, por um lado, falar que as pessoas que se ausentaram desta vida apenas dormem, consola, falar que Jesus morreu a mesma morte de nossos entes queridos e ressuscitou, é ainda mais consolador.‬‬
Isto não significa, em hipótese alguma, que as pessoas que creem como ensinam as Escrituras não podem se entristecer profundamente com a morte. A tristeza, a saudade, mesmo algo que não mais pode ser resolvido porque a pessoa não mais está aqui, quem sabe até o remorso, precisam fazer parte de um período de luto. O luto é um tempo de tristeza necessário para avaliar e reorganizar a vida. Porque, como diz o bispo anglicano Nicholas Wright, “o que cremos sobre a vida após a morte afeta diretamente o que cremos sobre a vida antes da morte”. O sofrimento é parte intrínseca da vida e saber sofrer a perda amadurece para uma vida saudável e equilibrada. Esta é a razão pela qual Paulo chama a Igreja ao conhecimento sobre a morte. Certo!


Mas, e depois?
Há a necessidade de que seja colocado mais um argumento. Uma vez que Paulo se baseia na convicção da ressurreição de Cristo – fato conhecido daqueles cristãos em Tessalônica – há a necessidade de tornar claro sobre a dinâmica dos fatos.


Os que dormem, esclarece o apóstolo, não ficarão em prejuízo ou desvantagem quando os acontecimentos relatados por Jesus (como já vimos acima – Mateus‬ ‭24.32-35) estiverem se desenvolvendo. O v.15 afirma que Paulo tem a certeza que, “pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem”. Ressuscitarão primeiro porque “...a verdade é que Cristo foi ressuscitado, e isso é a garantia de que os que estão mortos também serão ressuscitados.” (1Coríntios‬ ‭15.20‬ ‭NTLH)


A cronologia estabelecida
Paulo informa que as coisas acontecerão assim:


1. É dada a ordem. Ou seja, se ouve um alarido, uma ruidosa lamentação vinda da parte do Senhor.


2. Segue a voz do arcanjo. Somente Miguel é mencionado no NT (Judas 9) e lhe cabe a tarefa de reunir os santos e tocar a trombeta anunciando o juízo de Deus (Mt.24.31).


3. É ouvida a trombeta de Deus. “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” (1Coríntios‬ ‭15:51-52‬ ‭ARA‬‬).


4. O Senhor desce do céu – segundo a cosmovisão na época – e leva consigo, isto é, ressuscita as pessoas que nEle creem. Depois os que permanecem vivos têm sua vez de subir com o Senhor. De outra forma, o Ev. de Mateus, no capítulo 25.31-33, dá conta de que haverá apenas um momento de ressurreição.


5. O encontro de todas as pessoas crentes acontece, então, nos ares. “E assim estaremos com o Senhor para sempre” afirma o apóstolo Paulo (v.17).

Em busca do consolo
Como me referi em recente funeral, temos o tesouro de nossa vida em vasos de barro, “para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2Coríntios‬ ‭4.7‬ ‭ARA). Vivemos a provisoriedade da vida. A finitude se mistura à vontade de viver e eternizar a permanência com quem se gosta. Não temos palavras consoladoras banalizadas. Temos, isso sim, a convicta necessidade de viver como quem tem vida após a vida. Vivemos com dignidade e promovemos vida digna porque é isso que Jesus nos ensina. Nossa fé resiliente está acima dos casuísmos de nossa época, das políticas e dos poderes, acima da relativização da moral e da ordem. Somos realistas porque Jesus é real.


“A fé cristã continua realista. Não esconde a dureza da morte nem nega as dolorosas despedidas (...) Não se resolve o impacto da morte com falácias e mentiras. (...) A única maneira de resistir ao poder arrasador da morte é a resiliência da fé que aposta no Deus que vivifica os mortes e chama à existência as coisas que não existem (Romanos 4.17 ARA - Brakemeier G. PL 42.).


Consolem-se uns aos outros com estas palavras. (v.18)


Amém!
 


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Tessalonicenses I / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 18
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 45739
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É dever de pai e mãe ensinar os filhos, as filhas e guiá-los, guiá-las a Deus, não segundo a sua própria imaginação ou devoção, mas conforme o mandamento de Deus.
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